quarta-feira, 7 de abril de 2010

Design Inteligente, Criacionismo Científico, Neodarwinismo e o Ateísmo; (O que mais se coloca nestes títulos apenas para dar um ar sensacionalista?)

Sim, a idéia é pôr, de fato, o dedo na ferida. Não o dedo-mindinho, mas o polegar mesmo. E de preferência o do panda.

Falar, escrever, discutir, debater, argumentar, até pensar sobre o design inteligente é motivo de sobra para horas de discussões, algumas caras feias, outras caras de espanto, término de amizades, tensões em relacionamentos e, por fim, não chegar a lugar algum. Ou mesmo não finalizar a conversa. Mas, sendo este um blog de divulgação e discussão científica, e que tem como interesse maior do redator o falso conflito ciência x religião, pelo menos comentar a respeito é inevitável. Absolutamente.
Para abordar o design inteligente (e escrevo "design inteligente" porque só o termo “criacionismo científico” já me dá arrepios) tinha já pelo menos três pilotos em meus rascunhos, mas optei por reproduzir um texto de meu professor, publicado no Jornal da Ciência em 2002. Com permissão do autor:


JC e-mail 2130, de 30 de Setembro de 2002.

Design Inteligente: ignorar o problema não vai fazer com que ele vá embora, artigo de Marcio Pie

“Não há uma forma positiva de se detectar o designer, isto é, não há algo que possamos observar que o acusaria. Somente a nossa incapacidade de explicar um dado fenômeno seria evidência de DI”

Marcio Pie é doutorando em Ecologia, Comportamento e Evolução pela Boston University, EUA. Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”

"Estamos presenciando atualmente em Dover, Pensilvânia (EUA) a mais nova tentativa do movimento do "Design Inteligente" (DI) para tornar-se parte do currículo de escolas secundárias, desta vez através de uma batalha judicial.

É interessante notar que esse movimento encontra adeptos até no Brasil (como podemos perceber de tempos em tempos no próprio JC). Durante os depoimentos do julgamento de Dover, Michael Behe, um dos principais proponentes do DI e autor do livro "A caixa preta de Darwin", demonstrou a ginástica mental necessária para podermos considerar DI como ciência.

Como alguns poderiam imaginar, ele mudou a definição de ciência que é usada rotineiramente por cientistas.
O advogado que o interrogava, astutamente, perguntou-lhe se, dentro de sua definição, a astrologia seria também considerada ciência. Behe teve que concordar (os depoimentos estão disponíveis online).
Contudo, apesar de tanta repercussão na mídia, poucos cientistas sabem o que propõe o movimento DI. O meu objetivo com o presente texto é abordar três questões: o que é DI? Por que DI não é ciência? Seria DI o resultado de uma teologia equivocada?

Responder o que é DI é como tentar acertar um alvo móvel, mas imagino que a seguinte definição de DI agradaria a maior parte de seus proponentes: a ciência em geral (e a teoria da evolução em particular) não consegue explicar vários fenômenos.
Isso indicaria que algum "designer" interferiu na ordem natural das coisas para permitir que esse fenômeno acontecesse.

A forma de detectar a influência do designer não está clara em nenhum exemplo prático, embora já disponham de nomes bonitos como o "filtro explanatório de Dembski", “complexidade irredutível” e "complexidade especificada".

Finalmente, a identidade do designer não é determinada, o que deveria dar um ar de não-religiosidade à empreitada. Há inúmeros obstáculos para considerarmos DI uma abordagem científica:

(1) Não há uma forma positiva de se detectar o designer, isto é, não há algo que possamos observar que o acusaria. Somente a nossa incapacidade de explicar um dado fenômeno seria evidência de DI. (Posso imaginar a justificativa em meu próximo artigo a ser submetido: "o modelo apresentado no presente estudo explica 80% da variância nos dados, sendo que para os 20% não explicados pelo modelo eu invoco a influência de algum designer não especificado.");

(2) não há nenhuma proposta sobre os mecanismos que esse designer usaria para influenciar os fenômenos estudados (como admitido pelo próprio Behe em seu depoimento);

(3) A abordagem do DI não faz previsões que podem ser testadas. Em particular, não podemos saber de antemão onde poderíamos encontrar evidências de design - a "previsão" de onde haveria design é sempre feita a posteriori.

Em suma, DI afirma que um designer não especificado, através de um mecanismo não especificado, afeta vários fenômenos não especificados. Mas isso não impede os seus proponentes de afirmar que há evidências de DI em todo lugar: na explosão do Cambriano, no processo de especiação, no sistema de coagulação sanguínea, na estrutura do flagelo bacteriano, etc.

Recentemente os proponentes do DI apontaram 300 cientistas que apóiam a abordagem do DI. Curiosamente, apesar de tanta gente, não há um único artigo publicado em uma revista científica suportando ID (a não ser um artigo obscuro publicado no Proceedings of the Biological Society of Washington que passou pelo crivo dos referees mesmo não apresentando nenhum dado original).

Essa falta é explicada invocando uma grande conspiração dos cientistas para esconder a verdade sobre ID, um argumento bastante convincente nos círculos leigos (afinal de contas, quem não gosta de uma boa teoria da conspiração?).

Teologicamente, DI é uma reedição de um conceito antigo, o argumento do "Deus dos buracos". Não sabemos como algo funciona, ergo, isso é evidência de Deus.

Vários teólogos ao longo dos séculos combateram a idéia de chamar nossa ignorância de “Deus” como má teologia, visto que, pela visão bíblica, Deus sustenta e interage com a Criação continuamente, não somente em alguns poucos momentos de design.

Além disso, um Deus que precisaria constantemente “remendar” seu design original de tempos em tempos para que ele funcionasse não se parece com o Deus onipotente bíblico.

Finalmente, alguns conselhos práticos para cientistas ao se depararem com essas questões.

Primeiramente, é importante lembrar que os proponentes do DI representam uma pequena minoria entre os cientistas cristãos (embora estejam entre os que mais fazem barulho).

Há uma variedade de pontos de vista, incluindo os que sugerem que o processo evolutivo seja o mecanismo usado por Deus para criar o homem, como Francisco Ayala, Ghillean Prance e Francis Collins (diretor do projeto genoma humano do NHGRI).

Uma fonte útil de informações nessa área é a American Scientific Affiliation (http://www.asa3.org/). Além disso, é imprescindível lembrar que os leigos que ingenuamente simpatizam com DI geralmente o fazem por ignorância de como a ciência funciona.

A forma mais eficiente de esclarecer essas questões é através da educação científica e não através da ridicularização, a qual não só é contra-produtiva como também acaba corroborando a visão equivocada de uma “batalha” entre fé e ciência."

Prof. Dr. Marcio Pie,
doutorado em Ecologia, Comportamento e Evolução pela Boston University, EUA (2007)

sábado, 23 de janeiro de 2010

Frutos benéficos de um acontecimento lamentável



Há algum tempo venho acompanhando uma discussão acalorada e interessante que perdeu um pouco o entusiasmo e o brilhantismo devido ao triste falecimento do excepcional paleontólogo evolucionista Stephen Jay Gould em 2002. Mais triste ainda por eu ter sido apresentado a ele apenas após sua morte. Fato que faz parte da maldição e da bênção de ser jovem – não vivenciar as maravilhas do passado.

A questão se dá em cima da unidade de funcionamento dos mecanismos da evolução. Onde de um lado (como comentado e bem exposto no texto anterior “E quanto ao egoísmo daqueles genes?”) a ira de uns e outros é levantada por especulações a respeito desta unidade de seleção, de qual ela é, e de como ela funciona: Seriam os organismos as unidades de seleção, com suas ‘aptidões’ pondo-os à prova? Seriam as populações estas unidades? Onde uma ‘seleção de grupo’ ocorre de modo a empenhar-se em “manter suas populações em níveis satisfatoriamente constantes, de acordo com os recursos disponíveis”? Ou seriam os genes as unidades básicas de seleção, lutando para manterem-se no pool gênico, utilizando os organismos como meras máquinas de sobrevivência como propõe o polêmico biólogo evolucionista Richard Dawkins.

Fato é que, intolerâncias à parte, grande parte destas especulações podem ser aceitas como corretas e/ou factualmente possíveis. Mas (outra desta questão que ponho à público) seriam elas contrárias? A princípio pensamos que sim. Deixando alguns misticismos da seleção de grupo de lado: onde “uns se sacrificam pelo bem da espécie” e onde até arrisca-se a procurar um respaldo para a moralidade na natureza. E deixando outros ceticismos de lado: onde “o mundo não tem um propósito, um governador, e um fim definido - E nem mencionemos um designer! (Para não cair em uma outra questão ainda no forno)”. As três proposições parecem ser possíveis e, portanto, passíveis de serem denominadas como teorias válidas. Mas volto à questão: se as considerarmos como teorias válidas, mas diferentes entre si, deveríamos denominá-las como opostas?

Encontramos formas de corroborá-las aos montes com algumas reflexões sobre história natural. O leitor pode agora assumir como correta qualquer uma delas, e adotar um exemplo biológico para ilustrá-la. Penso em qualquer população de mamíferos com esquema de harém como exemplo: Um dimorfismo sexual acentuado, com o tamanho do corpo do macho chegando facilmente a duas ou três vezes o tamanho do corpo da fêmea. Independente se a relação entre machos e fêmeas for de 1 para 1, ou de 1 para 5, a disputa direta entre os machos ocorrerá e muito provavelmente definirá qual macho copula e qual não copula. Neste caso, o macho “mais apto” à lutar vence e têm filhos. Sem dúvida podemos facilmente adotar este exemplo para defender fielmente que, neste caso, a unidade de seleção é, de fato, o organismo – o macho mais fraco selecionado em favor do macho mais forte.

Pensemos em um outro exemplo: que mecanismos de seleção individual, ao nível do organismo, podemos propor para explicar o ferrão das abelhas-africanas?

Para início de conversa, as abelhas-africanas não estão disputando fêmeas – nem disputando machos. Mal importa qual o seu sexo¹. São operárias, trabalhando incessantemente para o funcionamento da colméia². Não há disputa entre as operárias para quem vai ou não procriar. Elas nem mesmo irão procriar. Vivem tão e somente para trabalhar e defender a colméia. Agora vamos analisar de uma forma mais específica: Características são, quase que todas, definidas de acordo com os genes. Eles podem ser selecionados a níveis de organismo, população, ou pool gênico. Peço que o leitor deixe a perspectiva da motivação de lado. Mas as características morfológicas são, de fato, definidas por eles. Que mecanismo de seleção explicaria a manutenção da característica de ter um ferrão presente no pool gênico das abelhas-africanas? Diferentemente de outros himenópteros, as abelhas não utilizam seu ferrão para auto defesa. Pois o uso do ferrão tem uma conseqüência seriíssima para sua dona: ela certamente morrerá em minutos. Só podemos interpretá-lo, portanto, como para defesa da colméia. Como, então, explicar o fato desta característica ter se estabelecido no pool gênico desta espécie? Do prisma da seleção individual não é possível fazê-lo. A não ser que, em uma especulação nem um pouco parcimoniosa, suponhamos que esta característica seja de um gene cuja expressão é limitada pelo sexo. Ou então limitada pela função do organismo na população. De qualquer forma, não garante explicação completa quando visto do prisma da seleção individual.

Mas a questão torna-se simples se for vista sob a ótica da seleção de genes: uma vez que o gene que promove a característica de ter um ferrão apareceu³, (juntamente, mas não simultaneamente, com o gene que promove o comportamento de usá-lo em casos extremos em que a colméia é ameaçada) a população que os tiverem tem maiores chances de se manter. (Atenção para o fato de que, para um gene surgir e se estabelecer em uma espécie deste tipo, ele tem que ter sido originado na gametogênese da mãe da rainha). Afastando possíveis predadores ou ameaças de danificá-la, o gene é mantido no pool desta população. Sem que o organismo em si seja selecionado, a característica é selecionada. E mantida. Portanto, será mesmo que estamos vendo dois contras de uma questão? Ou seriam dois lados de uma mesma moeda? A complexa e fascinante moeda dos mecanismos evolutivos da natureza.

¹ Para os curiosos, as abelhas operárias que vemos sobrevoando nossos refrigerantes e povoando nossas sorveterias são fêmeas. Os machos (zangões) são partenogênicos.
² E aqui outra brecha para um conceito muito interessante me apresentado recentemente denominado como conceito de “Super-organismo”. A colméia de abelhas é o exemplo mais didático possível para ilustrá-lo.
³ Obviamente aqui lê-se “uma vez que um gene tenha sofrido uma mutação e originado o novo gene que garante a característica”.



A.Bruinje
Em co-autoria com C.Magalhães
23.Jan.2010

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

E quanto ao egoísmo daqueles genes?

Para deixar a impressão de que somos dawkinistas de lado, ensaiamos um pouco à escrever. Mas ninguém melhor do que Stephen Jay Gould para discorrer sobre o assunto. Faço das palavras dele, as minhas.

Grupos protetores e genes egoístas
Por Stephen Jay Gould em O Polegar do Panda, 2004 pela Martins Fontes. p73

"O mundo dos objetos pode ser ordenado numa hierarquia de níveis ascendentes. Um dentro do outro. Dos átomos às moléculas por eles constituídas, aos cristais feitos de moléculas, aos minerais, às rochas, à Terra, ao sistema solar, à galáxia feita de estrelas e ao universo de galáxias. Diferentes forças atuam em diferentes níveis. As rochas caem devido à força da gravidade, mas, à nível atômico e molecular, a gravidade é tão fraca que os cálculos padrões a ignoram.

Também a vida atua em muitos níveis, e cada um tem seu papel no processo evolutivo. Consideremos três níveis principais: os genes, os organismos e as espécies. Os genes são projetos para os organismos; os organismos são os blocos construtores das espécies. A evolução requer variação, já que a seleção natural não pode operar sem um vasto conjunto de escolhas. A mutação é a fonte final da variação, e os genes são a unidade da variação. Os organismos individuais são a unidade da seleção. Mas os indivíduos não evoluem - eles só podem crescer, reproduzir-se e morrer. A mudança evolutiva ocorre em grupos de organismos interagentes; as espécies são a unidade da evolução. Resumindo, como escreve o filósofo David Hull, os genes se modificam, os indivíduos são selecionados e as espécies evoluem. Ou assim o proclama a visão darwinista ortodoxa.

A identificação dos indivíduos comunidades de seleção constitui um tema central no pensamento de Darwin. Darwin afirmava que o delicado equilíbrio da natureza não apresentava nenhuma causa "mais elevada". A evolução não reconhece o "bem do ecossistema" ou mesmo "o bem das espécies". Qualquer harmonia ou estabilidade é somente o resultado indireto de indivíduos perseguindo implacavelmente seu próprio interesse - em linguagem moderna, colocando mais genes seus nas gerações futuras, através de um maior êxito reprodutivo. Os indivíduos constituem a unidade da seleção; a "luta pela sobrevivência" é uma questão entre eles.

Durante os últimos quinze anos, no entanto, desafios ao foco de Darwin sobre os indivíduos produziram debates acalorados entre os evolucionistas. Esses desafios vieram de baixo e de cima. De cima, o biólogo escocês V. C. Wynne-Edwards provocou reações irritadas entre os ortodoxos ao argumentar, quinze anos atrás que são os grupos, e não os indivíduos, as unidades de seleção, pelo menos no domínio da evolução do comportamento social. De baixo, o biólogo inglês Richard Dawkins desencadeou recentemente minha própria irritação ao afirmar que os genes são as unidades da seleção, e os indivíduos meramente seus receptáculos temporários.

Wynne-Edwards apresentou sua defesa da "seleção de grupo" num longo livro intitulado Animal dispersion in relation to social behaviour. Iniciou com um dilema: se os indivíduos lutam apenas para maximizar seu êxito reprodutivo, por que é que tantas espécies parecem manter suas populações em níveis satisfatoriamente constantes, de acordo com os recursos disponíveis? A reposta darwinista tradicional invocava limitações externas de alimento, clima, e predação: se apenas alguns podem ser alimentados, então o resto morre de fome (ou congela ou é devorado), e os números se estabilizam. Wynne-Edwards, por outro lado, argumentou que os animais controlam suas populações aferindo as restrições do meio ambiente e regulando sua reprodução de acordo com elas, mas reconheceu imediatamente que essa teoria contrariava a insistência de Darwin na "seleção individual", pois pressupunha que muitos indivíduos limitam ou renunciam à sua própria reprodução para bem do grupo.

Wynne-Edwards postulava que a maioria das espécies estão divididas em numerosos grupos, mais ou menos distintos, alguns dos quais nunca desenvolvem um meio de regular sua reprodução. Nos anos bons, a população cresce e os grupos florescem; os anos ruins, os grupos não podem regular-se, sofrem severas baixas, estando sujeitos inclusive à extinção. Outros grupos desenvolvem sistemas de regulação nos quais muitos indivíduos sacrificam sua reprodução para benefício do grupo (uma impossibilidade se a seleção só favorecer indivíduos que buscam benefício próprio). Esses grupos sobrevivem aos períodos bons e maus. A evolução é uma luta entre grupos, não entre indivíduos. E os grupos sobrevivem se regulam suas populações pelos atos altruístas dos indivíduos. "É necessário", escreveu Wynne-Edwards, "postular que as organizações sociais são capazes de evolução progressiva e de perfeição com entidades com direito próprio."

Wynne-Edwards reinterpretou muito do comportamento animal a essa luz. O ambiente, se quiserem, imprime um número limitado de bilhetes, através de sistemas elaborados de rivalidade convencionada. Nas espécies territoriais, cada parcela de terreno contém um bilhete, e os animais (geralmente machos) procuram apoderar-se das parcelas. Os vencidos aceitam graciosamente a derrota e retiram-se para o celibato periférico, para o bem de todos. (Wynne-Edwards, claro, não imputa intenções conscientes a vencedores e derrotados. Em vez disso supõe a existência de algum mecanismo inconsciente subjacente à boa vontade dos vencidos.)

Em espécies com hierarquias de dominância, os bilhetes são repartidos pelo número de lugares apropriado, e os animais competem pelas posições. A competição se faz através de blefe e postura, já que os animais não devem destruir uns aos outros, lutando como gladiadores. No fundo, lutam somente por bilhetes para beneficiar o grupo. A disputa é mais uma loteria do que uma prova de habilidades; a distribuição do número certo de bilhetes é mais importante do que o vencedor. "A convencionalização da rivalidade e o fundamento da sociedade são uma e a mesma coisa", segundo Wynne-Edwards.

Mas como é que os animais sabem qual o número de bilhetes? Claro que não podem sabê-lo, a não ser que fizessem um censo da própria população. Na sua mais notável hipótese, Wynne-Edwards sugeriu que a congregação, enxameação, canto comunal e coral evoluíram através da seleção de grupo como dispositivos eficazes de censo, neles incluindo "o canto dos pássaros, o cricrilar dos gafanhotos verdes e grilos, o coachar das rãs, os sons submarinos dos peixes e a luz dos pirilampos".

Os darwinistas caíram duramente sobre Wynne-Edwards na década que se seguiu à publicação do seu livro. Aplicaram duas estratégias. Primeiro, aceitaram grande parte das observações de Wynne-Edwards, mas reinterpretaram-nas como exemplos de seleção individual. Argumentaram, por exemplo, que as hierarquias de dominância e a territorialidade se baseavam de fato em quem ganhava. Se a proporção entre machos e fêmeas é cerca de 50:50, e os machos bem-sucedidos monopolizam várias fêmeas, então nem todos os machos podem acasalar. Todos lutam pelo prêmio darwinista de transmitirem mais genes à descendência. Os vencidos não se afastam de boa vontade, satisfeitos porque seu sacrifício aumenta o bem comum. Foram simplesmente vencidos; com sorte, vencerão na sua próxima tentativa. O resultado pode ser uma população bem regulada, mas o mecanismo é a luta individual.

Virtualmente, todos os exemplos de altruísmo aparente citados por Wynne-Edwards podem ser reequacionados como relatos de egoísmo individual. Em muitos bandos de pássaros, por exemplo, o primeiro indivíduo que localiza um predador sola um grito de aviso. O bando dispersa, mas, de acordo com os selecionistas de grupo, o pássaro que grita salva seus colegas de bando chamando a atenção para si - autodestruição (ou, no mínimo, perigo) para bem do bando. Grupos de altruístas que gritam prevalecem na evolução sobre todos os grupos silenciosos e egoístas, apesar do perigo para o altruísta individual. Mas os debates trouxeram para o primeiro plano, pelo menos, doze alternativas que interpretam o grito como sendo benéfico para aquele que grita. O grito pode pôr o bando em movimento desordenado, confundindo assim o predador e diminuindo sua possibilidade de apanhar alguém, inclusive o que grita. Ou este último pode desejar retirar-se para lugar seguro, mas não se atreve a romper as fileiras para fazê-lo sozinho, com receio que o predador detecte um indivíduo fora do bando. Logo, ele grita para trazer o grupo junto de si. Aquele que grita pode estar em desvantagem em relação aos companheiros de bando (ou não, como o primeiro a buscar segurança), mas também pode se sair melhor do que se mantivesse o silêncio, permitindo assim ao predador apanhar alguém (talvez ele próprio) ao acaso.

A segunda estratégia contra a seleção de grupo reinterpreta gestos aparentes de altruísmo desinteressado como meios egoístas de propagar genes através de parentes sobreviventes - a teoria da seleção de parentesco. Os parentes partilham, em média, metade dos seus genes. Se alguém morre para salvar três parentes, passa 150% de si próprio através da reprodução desses parentes. Novamente, o aparente sacrifício visa ao próprio benefício evolutivo, quando não até a uma continuidade corporal. A seleção de parentesco é uma forma de seleção individual darwinista.

Essas alternativas não contestam a seleção de grupo porque apenas recontam suas histórias à maneira darwinista mais convencional da seleção individual. O pó tem ainda de assentar sobre esse assunto controverso, mas um consenso (talve incorreto) parece já estar emergindo. A maior parte dos evolucionistas admitiram agora que a seleção de grupo pode ocorrer em certas situações especiais (espécies constituídas por muitos grupos separados, socialmente coesos e em competição direta uns com os outros). Mas encaram essas situações como incomuns, talvez porque os grupos separados sejam frequentemente grupos de parentesco - o que faz prevalecer a seleção de parentesco como explicação para o altruísmo dentro do grupo.

No entanto, mal a seleção individual saiu, relativamente ilesa, da batalha com a seleção de grupo, outros evolucionistas lançaram-lhe um ataque a partir de baixo. Os genes, argumentaram eles, e não os indivíduos, é que constituem as unidades da seleção. Começam por adaptar o famoso aforismo de Butler de que uma galinha é apenas o meio de um ovo fabricar outro ovo. Um animal, afirmam eles, é só uma maneira de o DNA fabricar mais DNA. Richard Dawkins pôs a questão mais vigorosamente em seu recente livro The selfish Gene: "Um corpo é a maneira que os genes têm de manter o genes inalterados."

Para Dawkins, a evolução é uma batalha entre genes, cada um procurando fabricar mais cópias de si mesmo. Os corpos são apenas os lugares onde os genes se agregam por algum tempo, são receptáculos temporários, máquinas de sobrevivência manipuladas pelos genes e descartadas para o lixo geológico, tão logo se tenham reduplicado e mitigado sua sede insaciável de mais cópias de si mesmos nos corpos das gerações seguinte:

Somos máquinas de sobrevivência - veículos robotizados, cegamente programados para preservar as moléculas egoístas conhecidas como genes....

Eles pululam em enormes colônias, em segurança no interior de pesados e gigantescos robôs ... estão em vocês e em mim; eles no criaram, corpo e mente; e sua preservação é a razão última para a nossa existência.

Dawkins abandona explicitamente o conceito darwinista dos indivíduos como unidades da seleção: "Argumentarei que a unidade fundamental da seleção e, portanto, do interesse pessoal, não é a espécie, nem o grupo, nem mesmo estritamente o indivíduo. É o gene a unidade da hereditariedade." Assim, não deveríamos falar em seleção de parentesco e altruísmo aparente. Os corpos não são as unidades apropriadas. Os genes simplesmente tentam reconhecer as cópias de si mesmo onde quer que elas ocorram. Atuam apenas para preservar e fabricar mais cópias, sem se preocuparem absolutamente com o corpo que lhes serve de casa temporária.

Começo minha crítica declarando que não me sinto incomodado com o que choca a maior parte das pessoas, o elemento mais ultrajante dessas afirmações - a imputação de ação consciente aos genes. Dawkins sabe tão bem quanto vocês ou eu que os genes não planejam nem esquematizam; não atuam como agentes argutos da sua própria preservação. Dawkins está apenas perpetuando, de maneira mais colorida, uma estenografia metafórica usada (talvez insensatamente) por todos os escritores populares que escrevem sobre a evolução, incluindo eu próprio (embora moderadamente, espero). Quando ele diz que os genes lutam para fazer mais cópias de si mesmos, que dizer de fato: "a seleção atua em favor dos genes que, por acaso, variaram de tal maneira, que mais cópias suas sobreviveram nas gerações subsequentes". A segunda afirmação é pretensiosa; a primeira é direta e aceitável como metáfora, embora seja imprecisa literalmente.

Todavia, há uma falha fatal no ataque de Dawkins. Não importa quanto poder queira atribuir aos genes, uma coisa não lhes pode imputar - visibilidade direta da seleção natural. A seleção simplesmente não pode ser os genes e escolher diretamente entre eles; ela tem de usar os corpos como intermediários. O gene é um pedaço de DNA escondido no interior da célula. A seleção vê os corpos, favorece alguns deles porque são mais fortes, melhor isolados, são mais precoces na sua maturação sexual, ferozes em combate ou mais bonitos de se olhar.

Se, ao favorecer um corpo mais forte, a seleção já atuou diretamente sobre um gene de força, então Dawkins poderá ser justificado. Se os corpos fossem mapas inequívocos de seus genes, então os pedaços batalhadores de DNA exibiriam suas cores externamente e a seleção poderia atuar diretamente sobre eles. Mas os corpos não são tal coisa.

Não há nenhum gene "para" esses pedaços inequívocos de morfologia, como sua rótula esquerda ou suas unhas. Os corpos não podem ser atomizados em partes, cada uma delas construída por um gene individual. Centenas de genes contribuem para a construção de muitas partes do corpo, e sua ação é canalizada através de uma série caleidoscópica de influência ambientais: embrionárias e pós-natais, internas e externas. As partes de um corpo não são genes traduzidos, e a seleção nem sequer trabalha diretamente sobre elas. Aceita ou rejeita organismos inteiros porque conjuntos de partes, interagindo de maneiras complexas, são mais vantajosos. A imagem de genes individuais marcando o curso da sua própria sobrevivência tem pouca relação com a genética do desenvolvimento, como a entendemos. Dawkins precisará de outra metáfora: genes conspirando, formando alianças, mostrando deferência por uma hipótese de se juntarem num pacto, aferindo os ambientes prováveis. Mas, quando amalgamamos tantos genes e os ligamos em cadeias hierárquicas de ação mediadas por ambientes, chamamos o objeto resultante de corpo.

Além disso, a visão de Dawkins supõe que os genes tenham influência sobre os corpos. A seleção não os pode ver, a menos que se traduzam em pedaços de morfologia, fisiologia ou comportamento que façam diferença para o êxito de um organismo. Precisamos não apenas de um mapeamento de um para um entre gene e corpo (criticado no último parágrafo), mas também de um mapeamento adaptativo de um para um. Por ironia, a teoria de Dawkins chegou justamente numa altura em que cada vez mais evolucionistas estão rejeitando a suposição panselecionista de que todos os pedaços do corpo são modelados no cadinho da seleção natural. Pode ser que muitos genes, se não todos, trabalhem igualmente bem (ou, no mínimo, suficientemente bem) em todas as suas variantes, e que a seleção não escolha entre eles. Se a maioria dos genes não se apresenta à revista, então eles não podem constituir a unidade da seleção.

Penso, em resumo, que o fascínio gerado pela teoria de Dawkins é fruto de alguns maus hábitos do pensamento científico ocidental - das atitudes (perdoem-me o jargão) que denominamos atomismo, reducionismo e determinismo: a idéia de que os todos podem ser compreendidos por decomposição em unidades "básicas"; de que as propriedades das unidades microscópicas podem gerar e explicar o comportamento de resultados macroscópicos; de que todos os acontecimentos e objetos têm causas previsíveis, definidas e determinadas. Essas idéias têm sido eficazes no estudo de objetos simples, constituídos por poucos componentes e sem a influência de uma história anterior. Tenho absoluta certeza de que meu fogão se acenderá quando eu o ligar (e acendeu). As leis dos gases, construídas a partir das moléculas, levam-nos até as propriedades previsíveis de volumes maiores. Mas os organismos são muito mais o que amálgamas de genes. Têm uma história que não podemos desprezar; suas partes interagem de maneiras complexas. Os organismos são construídos por genes atuando em concerto, são influenciados pelos ambientes e traduzidos em partes que a seleção vê e partes que ela não vê. As moléculas que determinam as propriedades da água constituem uma pobre analogia dos genes e dos corpos. Posso não ser o senhor do meu destino, mas minha intuição da totalidade provavelmente reflete uma verdade biológica."

Stephen Jay Gould

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