sábado, 23 de janeiro de 2010

Frutos benéficos de um acontecimento lamentável



Há algum tempo venho acompanhando uma discussão acalorada e interessante que perdeu um pouco o entusiasmo e o brilhantismo devido ao triste falecimento do excepcional paleontólogo evolucionista Stephen Jay Gould em 2002. Mais triste ainda por eu ter sido apresentado a ele apenas após sua morte. Fato que faz parte da maldição e da bênção de ser jovem – não vivenciar as maravilhas do passado.

A questão se dá em cima da unidade de funcionamento dos mecanismos da evolução. Onde de um lado (como comentado e bem exposto no texto anterior “E quanto ao egoísmo daqueles genes?”) a ira de uns e outros é levantada por especulações a respeito desta unidade de seleção, de qual ela é, e de como ela funciona: Seriam os organismos as unidades de seleção, com suas ‘aptidões’ pondo-os à prova? Seriam as populações estas unidades? Onde uma ‘seleção de grupo’ ocorre de modo a empenhar-se em “manter suas populações em níveis satisfatoriamente constantes, de acordo com os recursos disponíveis”? Ou seriam os genes as unidades básicas de seleção, lutando para manterem-se no pool gênico, utilizando os organismos como meras máquinas de sobrevivência como propõe o polêmico biólogo evolucionista Richard Dawkins.

Fato é que, intolerâncias à parte, grande parte destas especulações podem ser aceitas como corretas e/ou factualmente possíveis. Mas (outra desta questão que ponho à público) seriam elas contrárias? A princípio pensamos que sim. Deixando alguns misticismos da seleção de grupo de lado: onde “uns se sacrificam pelo bem da espécie” e onde até arrisca-se a procurar um respaldo para a moralidade na natureza. E deixando outros ceticismos de lado: onde “o mundo não tem um propósito, um governador, e um fim definido - E nem mencionemos um designer! (Para não cair em uma outra questão ainda no forno)”. As três proposições parecem ser possíveis e, portanto, passíveis de serem denominadas como teorias válidas. Mas volto à questão: se as considerarmos como teorias válidas, mas diferentes entre si, deveríamos denominá-las como opostas?

Encontramos formas de corroborá-las aos montes com algumas reflexões sobre história natural. O leitor pode agora assumir como correta qualquer uma delas, e adotar um exemplo biológico para ilustrá-la. Penso em qualquer população de mamíferos com esquema de harém como exemplo: Um dimorfismo sexual acentuado, com o tamanho do corpo do macho chegando facilmente a duas ou três vezes o tamanho do corpo da fêmea. Independente se a relação entre machos e fêmeas for de 1 para 1, ou de 1 para 5, a disputa direta entre os machos ocorrerá e muito provavelmente definirá qual macho copula e qual não copula. Neste caso, o macho “mais apto” à lutar vence e têm filhos. Sem dúvida podemos facilmente adotar este exemplo para defender fielmente que, neste caso, a unidade de seleção é, de fato, o organismo – o macho mais fraco selecionado em favor do macho mais forte.

Pensemos em um outro exemplo: que mecanismos de seleção individual, ao nível do organismo, podemos propor para explicar o ferrão das abelhas-africanas?

Para início de conversa, as abelhas-africanas não estão disputando fêmeas – nem disputando machos. Mal importa qual o seu sexo¹. São operárias, trabalhando incessantemente para o funcionamento da colméia². Não há disputa entre as operárias para quem vai ou não procriar. Elas nem mesmo irão procriar. Vivem tão e somente para trabalhar e defender a colméia. Agora vamos analisar de uma forma mais específica: Características são, quase que todas, definidas de acordo com os genes. Eles podem ser selecionados a níveis de organismo, população, ou pool gênico. Peço que o leitor deixe a perspectiva da motivação de lado. Mas as características morfológicas são, de fato, definidas por eles. Que mecanismo de seleção explicaria a manutenção da característica de ter um ferrão presente no pool gênico das abelhas-africanas? Diferentemente de outros himenópteros, as abelhas não utilizam seu ferrão para auto defesa. Pois o uso do ferrão tem uma conseqüência seriíssima para sua dona: ela certamente morrerá em minutos. Só podemos interpretá-lo, portanto, como para defesa da colméia. Como, então, explicar o fato desta característica ter se estabelecido no pool gênico desta espécie? Do prisma da seleção individual não é possível fazê-lo. A não ser que, em uma especulação nem um pouco parcimoniosa, suponhamos que esta característica seja de um gene cuja expressão é limitada pelo sexo. Ou então limitada pela função do organismo na população. De qualquer forma, não garante explicação completa quando visto do prisma da seleção individual.

Mas a questão torna-se simples se for vista sob a ótica da seleção de genes: uma vez que o gene que promove a característica de ter um ferrão apareceu³, (juntamente, mas não simultaneamente, com o gene que promove o comportamento de usá-lo em casos extremos em que a colméia é ameaçada) a população que os tiverem tem maiores chances de se manter. (Atenção para o fato de que, para um gene surgir e se estabelecer em uma espécie deste tipo, ele tem que ter sido originado na gametogênese da mãe da rainha). Afastando possíveis predadores ou ameaças de danificá-la, o gene é mantido no pool desta população. Sem que o organismo em si seja selecionado, a característica é selecionada. E mantida. Portanto, será mesmo que estamos vendo dois contras de uma questão? Ou seriam dois lados de uma mesma moeda? A complexa e fascinante moeda dos mecanismos evolutivos da natureza.

¹ Para os curiosos, as abelhas operárias que vemos sobrevoando nossos refrigerantes e povoando nossas sorveterias são fêmeas. Os machos (zangões) são partenogênicos.
² E aqui outra brecha para um conceito muito interessante me apresentado recentemente denominado como conceito de “Super-organismo”. A colméia de abelhas é o exemplo mais didático possível para ilustrá-lo.
³ Obviamente aqui lê-se “uma vez que um gene tenha sofrido uma mutação e originado o novo gene que garante a característica”.



A.Bruinje
Em co-autoria com C.Magalhães
23.Jan.2010

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